quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação.
Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão. "

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Você acredita em Deus ?

"(...)

Quando ele acenou para o garçom e pediu a conta, perguntei:

- Pai, você acredita em Deus?

Ele se surpreendeu com minha pergunta.

- Você não acha um pouco pesado falar sobre essas coisas a essa hora do dia? - retrucou.

(...)

- Se realmente existe um Deus - continuei -, então ele adora ficar brincando de esconde-esconde com suas criações.

Meu pai riu da minha observação, mas eu sabia que concordava comigo.

- Talvez ele tenha tido um choque quando viu o que tinha criado - disse ele. - E então saiu rapidinho de cena. Você sabe... é difícil dizer quem levou o susto maior, se foi Adão ou o Mestre. De fato, acho que um ato de criação dessa magnitude provoca um susto tão grande tanto numa parte como na outra. Mas acho que pelo menos poderia ter assinado rapidamente sua obra-prima.

- Assinado?

- Sim. Ele poderia ter gravado seu nome nas rochas de uma montanha, por exemplo.

- Quer dizer que você acredita em Deus?

- Não disse isso. Pode muito bem ser que ele esteja sentado em seu trono lá no céu, rindo de nós porque não acreditamos nele.

'Exatamente!' pensei. Meu pai já tinha feito um comentário parecido com esse lá em Hamburgo

E então ele prosseguiu:

- Pois mesmo que ele não tenha deixado nenhum cartão de visita, pelo menos deixou o mundo. Acho que isso já é o bastante, você não acha? - Ficou calado por um tempo e depois disse: - Certa vez um cosmonauta russo e um neurocirurgião, também russo, discutiam sobre o cristianismo. O neurocirurgião era cristão, o cosmonauta não era. 'Já viajei muitas vezes para o espaço sideral' gabou-se o cosmonauta, 'mas nunca vi nenhum anjo.' O neurocirurgião primeiro ficou olhando para ele; depois disse: 'Eu já operei muitos cérebros inteligentes, mas nunca vi um pensamento'.

(...)"